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ARTIGOS (TORÜ DEAGÜ)

 


CANTORIAS QUE ALEGRAM OS ENCANTADOS

Por Djuena Tikuna 
 
O que assobiava Yo'i quando pescou o povo Tikuna no Eware ?
o sei se alguém consegue responder. O que sei é que a música para nós,
povos indígenas, é nativa. Tanto quanto o mais velho ancião,
é
 nativa porque nasce conosco, tem cheiro de fumaça,

gosto de mapati e é pintada de urucum e jenipapo.
 
Há música no canto  da parteira que acalma a mãe que vai parir
e do lado de fora da maloca, o pajé, ao som do maracá,
entoa seus cânticos sagrados para afastar o mal e acalanta os espíritos.
 
O canto faz parte do nosso cotidiano.
Cantamos quando nascemos e quando morremos.
Há cantoria para botar roça, para pescar e para caçar.
Quando chove ou faz sol, cantamos nos rituais de paz e de guerra.
Celebramos a vida através do canto.
 
Através do canto mostramos nossas lutas,
para que sejamos exemplos para nossas crianças, 
que a música é um ensinamento.
É uma forma que podemos usar para resgatar e manter a cultura.
 
Faço do meu canto um protesto para ajudar o meu povo,
para que a nossa cultura seja respeitada.
 
Para meu povo Tikuna, a música é também formadora de caráter,
uma vez que nos rituais de Worecü, as anciãs através de seus cânticos vãinstruindo
a Moça Nova, dizendo como a jovem deve ser na sociedade do povo Magüta,
como ser mãe, nora e esposa. 
 
A cantoria é nossa identidade. E de certa forma, une a todos povos indígenas em uma só canção.
Ao ouvirem o chamado dos maracás os parentes  se aproximam, é quando começa a grande festa.
E quanto a Yo'i, acredito que Tomagü rü aürimani tá ta'egü
ni togawa tá wiyaegü, rü ngemama pe'ë tarü mo'ē, torü wiyaëma.
 
Rü moëtchi!
 
 
AS DEUSAS DAS ENCANTARIAS
Conto poético de Márcia Wayna Kambe
 
Bem no meio da floresta
Sob os olhos da lua
Apareceu feito fumaça 
Uma dama para encontrar
As forças da natureza
Defensoras desse lar.
 
Logo se viu a Matinta
Se arrumando para bonita ficar.
Mas coitada! Se espantou
Ao ver a Curupira acolá
Com o cabelo até o pé
Esperando seu patauá.
 
Matinta e Curupira
Amizade milenar.
Uma troca de conversa
Foi interrompida com um grito,
As árvores se balançaram
Ventou forte, quanto agito.
Apareceu a Yara balançando seu vestido.
 
Perto dali o chão tremeu,
Quem será que apareceu?
A bicharada correu, 
Curupira se escondeu,
E uma voz forte 
Ecoou por todo Norte.
A reunião vai começar! 
A mãe terra apareceu.
 
Eis que surge a morena bela
Com um vestido em tom marrom,
Na cabeça uma tiara de flores,
Os lábios rosados
Será que ela usa batom?
 
Começa o encontro das deusas,
Cada uma em seu lugar,
Mulheres de rara beleza
Só as encantarias podem ajudar.
 
A não deixar que o homem consiga
Destruir seu habitar,
Poluir os rios e mares,
Represar para desajuatar,
Desmatar o verde mundo
A mãe da mata chora sem parar,
Está ficando desnuda,
Seu corpo tem cicatriz  
De uma maldade milenar .
 
A Curupira tem medo
De sua cabeleira cortar,
Imaginar que é uma sucupira
Que em móvel vai se tornar.
 
Reunidas essas damas
Querem consertar o seu pensar,
Precisa que o homem se permita
Entender para reverberar
Educação e conservação
Deixemos elas nos ensinar.
Quer mudar o teu pensar?